Algumas semanas atrás, ouvi de um educador algo que me fez não apenas voltar aos meus bons tempos de criança, mas também refletir sobre a condição de nossos jovens.

Na ocasião, o educador argumentava que há algumas décadas, quando éramos  crianças  e caíamos e nos machucávamos nas brincadeiras de rua,  nosso maior  temor era levar uma bronca pelo ocorrido.

Após a reprimenda, o machucado (normalmente um belo arranhão) recebia uma boa dose de mertiolate (ou “cuspe do diabo”, como intitulávamos a receita milagrosa). A haste do produto era dura. E o pior: ardia. Atualmente, caso a criança se machuque ou sofra um pequeno acidente, a tendência é que  os pais procurem um culpado. Não há bronca. A haste do mertiolate agora é flexível. Pior: a substância não arde mais.

 

Em outras palavras: estamos querendo criar crianças e adolescentes  sem  cicatrizes.

 

Sim, admito que em um passado remoto, calcado nas décadas de 1960, 1970 e parte da de 80,  os indivíduos, em geral, estavam mais fortemente engajados em alguma estrutura de apoio, fosse  ela política ativista ou  artística ou mesmo um investimento de existência. No ar, um clima de entusiasmo, calcado em bandeiras políticas e sociais.

 

Muita coisa mudou nos últimos anos, sem que muitos de nossos jovens  tenham percebido. Os mais velhos perceberam, mas parece que não se dão conta. Já houve uma época em que um jovem adolescente tinha como plano sair de casa, buscando vida própria e independente.

 

Afinal de contas o lar propicia, dentro de uma sociedade competitiva e com uma formação familiar individualista, proteção e refúgio certo. Para os pais, a sensação de que o tempo não passa. Para os filhos, a comodidade do lugar seguro e do conforto. Ou seja, a família deixou de ser uma instituição para converter-se em uma associação. Mas talvez esta proteção demasiada esteja tirando  de boa parte de nossa juventude a percepção de mundo que deveria ser mais real e realista.

 

Da mesma forma os jovens são testemunhas da expansão dos meios técnicos de comunicação e informação que possibilitam contatos, ligações nunca antes imaginadas com o mundo, de forma rápida e eficiente,  com os aparelhos técnicos invadindo cada um dos espaços das atividades de rotina.   No entanto, tal conquista tecnológica trouxe dissabores.

 

Um deles em especial:  a máquina e os objetos assumiram  importância decisiva, substituindo o convívio mais pleno e verdadeiro e transformando um mundo real em um mundo aparente. Ou seja, o cenário técnico apodera-se do real.

 

A culpa sendo deletada.  Desta forma, a possibilidade de frustrações aumenta. Ao mesmo tempo, os sentimentos de insegurança, de perda de sentido e orientação e vazio político e de valores, passam a prevalecer.   A sensação e aparência é a  de que não se tem pelo que lutar, a não ser por uma estrutura material que  permita usufruir da melhor maneira uma vida confortável.

 

Ao que parece, muitos  jovens cansaram e estão fartos de boa parte disso tudo, querendo ser parte atuante de um mundo mais real, o que pode ser demonstrado pela reação à medida do governo paulista que pretendia o remanejamento de mais de trezentos  mil alunos e o fechamento de noventa e duas escolas, não discutida de forma satisfatória (a tal da reorganização escolar). Nossos jovens ocuparam vias e escolas, talvez cansados da falta de cicatrizes, de não poderem trabalhar suas próprias vidas, de não se apoderarem do mundo que os envolve.

 

E não é de agora. Tampouco a reação dos estudantes (como no caso recente de São Paulo) parece tratar-se de mais um espasmo de participação, pois demonstram, em suas últimas atitudes,  serem mais articulados e informados do que se imagina. Desta forma, unem-se em perspectivas e lutas.

 

No final da década de 1980 – em uma oportunidade rara para mim – indaguei Antônio Cândido de Melo se o jovem não lhe parecia, àquela altura, despolitizado e desmobilizado. Cândido, em sua sapiência, disse-me: “tudo é cíclico”. Ao que parece, tinha razão.

 

Artigo escrito pelo professor Agnaldo Kupper – professor de História do Sigma e do Prime. Mestre  na área de História e Sociedade e doutorando na área de Política e Representações; professor de cursos de graduação e pós-graduação; autor de livros didáticos e paradidáticos.

 

Curso e Colégio Sigma há mais de 20 anos vem se consolidando como a maior referência em curso pré-vestibular de Londrina e agora também com ensino médio. É líder em aprovações nas mais diversas universidades públicas e privadas do país.

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